Estudo diz que mineração em mar profundo destrói valor em 83% dos cenários realistas
Análise da Koinon Consulting, feita sobre projeções da TMC, estima 61% de chance de investidores não recuperarem o capital e aponta perda de receita para países com mineração em terra.

A mineração em mar profundo tende a destruir valor econômico e a deixar no prejuízo os Estados que patrocinam as operações. A conclusão é do estudo "Case Not Proven: The Economics of Deep-Sea Mining", divulgado em 7 de outubro de 2026 por um comunicado de organizações ligadas à conservação, segundo o SAPO. O Ambiente Magazine também noticiou o trabalho.
O relatório é assinado pela Koinon Consulting. Quem o promove são a DSCC, a Oceans North, a IUCN, a Dona Bertarelli Philanthropy e a Fundação Oceano Azul.
Teste de stress sobre números da própria TMC
De acordo com o Ambiente Magazine, os autores aplicaram um teste de stress às projeções que a própria The Metals Company (TMC) fez para os projetos NORI-D e TOML. Ou seja, partiram dos números da empresa e os submeteram a condições adversas.
O resultado: em 83% dos cenários realistas, a atividade destrói valor. Isso vale antes de contabilizar custos ambientais e sociais, de acordo com as duas fontes.
Há ainda uma probabilidade de 61% de que investidores não recuperem o capital aplicado.
A TMC projeta cerca de US$ 23 bilhões em valor. O teste, porém, resultou em perda mediana de US$ 5 bilhões.
Mineração em mar profundo "não é investimento atrativo"
Para Johnny West, que assina o estudo e dirige a Koinon Consulting, os retornos são baixos demais diante dos riscos. Em sua avaliação, "a mineração em mar profundo não se apresenta como um investimento atrativo", segundo as duas fontes.
Efeito sobre a mineração em terra e sobre os Estados
O estudo argumenta que a entrada de oferta vinda do fundo do mar deprimiria os preços dos metais. Com isso, cairia a receita pública gerada pela mineração em terra. É um efeito que atinge países que hoje dependem dessa atividade, e não só os que decidissem licenciar operações submarinas. O debate sobre oferta e preço de metais já aparece no setor em terra, como na análise da Anglo American sobre o negócio do níquel no Brasil, embora sem relação com o estudo.
Segundo o Ambiente Magazine, entre os países que mais sentiriam o impacto estão a Indonésia, a África do Sul, o Gabão e a República Democrática do Congo, além de outros.
O comunicado citado pelo SAPO calcula que, no pico de produção, os governos perderiam de US$ 1,1 bilhão a US$ 1,19 bilhão por ano.
Os Estados patrocinadores, por sua vez, assumem riscos legais e ambientais. Em boa parte dos cenários, de acordo com as duas fontes, eles nem sequer arrecadariam imposto de renda das empresas.
Danos ambientais ficaram de fora da conta
A análise não contabiliza danos ambientais nem impactos sobre pesca, sustento de comunidades e ecossistemas. Os autores afirmam que, se esses itens entrassem, o balanço seria ainda pior.
Diretora da DSCC, Sofia Tsenikli defende que apoiar uma moratória é a escolha economicamente responsável, conforme o Ambiente Magazine. Torsten Thiele, do Global Ocean Trust, pede que os membros da ISA, a autoridade internacional dos fundos marinhos, considerem a evidência do estudo.
Vale notar quem está por trás do relatório. Os promotores são organizações de conservação, e não um órgão regulador ou uma instituição financeira independente. O modelo usa dados da TMC, mas a conclusão é dos autores.
O que ainda não se sabe
As fontes consultadas não trazem a resposta da The Metals Company ao estudo, de modo que a empresa não se manifestou sobre as conclusões nos textos disponíveis. Também não aparecem as premissas de preço e de custo usadas no modelo, que determinam o peso do resultado de 83% dos cenários.
Também não há informação sobre a posição da ISA nem sobre os prazos de regulamentação da atividade. Falta, por fim, o resultado detalhado para cada nível de produção testado, já que a perda de receita dos governos foi apresentada apenas para o pico de produção.
Fontes desta matéria
- Ambiente Magazine, 08/10/2026
- SAPO, 07/10/2026
O que as fontes não cobrem: Resposta da The Metals Company ao estudo Premissas de preço e custo usadas no modelo Posição da ISA e prazos de regulamentação Resultado detalhado para cada nível de produção testado
