Sondagem acha disprósio e térbio no projeto Homer-A, em Goiás, mas resultado ainda não é reserva
Primeiros furos da Rare Earths Americas somam 1.250 metros, 8% da campanha, e mostram argila rica em terras raras de ímã; a estimativa de recurso só deve sair em 2027

A Rare Earths Americas (REA), mineradora listada na NYSE American, publicou na quarta-feira, 23 de setembro, as primeiras análises de laboratório do projeto Homer-A, em Goiás. As amostras apontam terras raras em argila e saprolito, a rocha já decomposta pelo tempo, a poucos metros da superfície e com proporção alta de disprósio e térbio, os mais valorizados do grupo, segundo a empresa. O anúncio é de exploração: não existe recurso mineral estimado nem reserva, e a própria empresa faz essa ressalva.
O que os furos mostraram
A REA abriu 14 furos por circulação reversa, método que tritura a rocha e traz o pó à superfície. O comunicado traz 11 deles, que somam cerca de 1.250 metros; todos cortaram mineralização, espalhada por uns 2,15 km².
O destaque é o furo RC-TGA-0010: 22 metros com 2.298 ppm de TREO+Sc, sigla que soma os óxidos de todas as terras raras e o escândio, a partir de 5 metros de profundidade. Dentro dele, um trecho de 7 metros chegou a 3.424 ppm, com 33,9% de terras raras pesadas e 4,1% de disprósio e térbio juntos. O RC-TGA-0004 deu 13 metros a 2.392 ppm, com 3 metros a 4.039 ppm, 40,9% de pesadas e 4,4% de Dy e Tb.
Traduzindo: ppm é parte por milhão, o mesmo que grama por tonelada. Os 2.298 ppm correspondem a cerca de 2,3 kg de óxidos em cada tonelada de solo, ou 0,23% do material. Já os 4,1% não são teor da rocha, e sim a fatia do disprósio e do térbio dentro do total de terras raras. No trecho de 3.424 ppm, isso dá perto de 140 ppm dos dois metais. É essa proporção que a empresa aponta como diferencial.
Pelas contas da REA, nos intervalos acima de 4.000 ppm, neodímio, praseodímio e pesadas passam de 70% do total, com disprósio e térbio acima de 4,5%. A camada mineralizada tem, até aqui, quase 20 metros de espessura média. A empresa diz que suas proporções de Dy e Tb parecem superiores às de outros projetos brasileiros em argila, mas admite que método de análise, teor de corte e fase de cada projeto atrapalham a comparação. A sondagem também achou nióbio, tântalo e escândio.
Por que disprósio e térbio pesam
Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio formam a base dos ímãs permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), que movem carros elétricos, turbinas eólicas, robôs e sistemas de defesa. Disprósio e térbio garantem que o ímã não perca força quando esquenta. Pela consultoria Adamas Intelligence, citada pela REA, mais de 90% da produção mundial dos dois sai da China.
Furo não é reserva
O comunicado enquadra os dados como resultados de exploração, pelas regras da SEC, a comissão de valores dos Estados Unidos, e avisa que eles não permitem calcular tonelagem nem teor médio. Para haver recurso mineral, é preciso uma malha de furos fechada e modelagem estatística que diga quanto material existe e com que teor. Reserva é o passo seguinte: a parte do recurso que um estudo econômico prova ser lavrável com lucro. Homer-A não tem nem um nem outro.
A outra incógnita é a metalurgia. A REA testa se as terras raras estão presas de forma frouxa à argila e saem por lixiviação, traço das argilas de adsorção iônica. Nenhum teste de lixiviação terminou, e sem ele não se sabe se o metal pode ser recuperado a custo viável. A área testada, por fim, é menos de 20% da anomalia geoquímica principal, de 12 km².
Próximos passos
A campanha de 2026 prevê 15 mil metros, custa US$ 5 milhões e começou em 17 de junho. Em 15 de setembro já passava de 6.500 metros. A REA dobrou a frota para quatro sondas, quer fechar o programa até o fim do ano e promete a primeira estimativa de recurso em 2027.
"Homer avançou rapidamente desde o nosso IPO em maio", afirmou o CEO Donald Swartz no comunicado (tradução nossa). A REA levantou US$ 63,3 milhões no IPO, a US$ 19 por ação; a Rare Earth Exchanges registrou o papel perto de US$ 11, cerca de 42% abaixo. No dia do anúncio, a ação caiu 1,3% em Nova York, segundo a Mining.com.
No Brasil, a REA tem ainda Alpha, na Bahia, e Constellation, em Minas Gerais. Alpha é o mais adiantado, com recurso estimado de 201,7 milhões de toneladas a 1.520 ppm. Francisco Tomazoni, country manager no país, disse à CNN Brasil que a produção ali pode começar em 2031.
Goiás já produz terras raras
O estado abriga a única operação comercial do país: a mina Pela Ema, da Serra Verde, em Minaçu, que produz desde janeiro de 2024 os quatro elementos de ímã. A USA Rare Earth concluiu neste mês a compra da Serra Verde, em negócio de cerca de US$ 2,8 bilhões.
O que falta saber
A REA não diz em que município fica Homer-A, e nenhuma fonte consultada informa os processos do projeto na ANM ou pedido de licença ambiental. Não há recurso, reserva, estudo econômico nem dado de recuperação metalúrgica. E os resultados de mais de 5 mil metros já perfurados ainda não saíram.
Fontes desta matéria
- Rare Earths Americas, comunicado ao mercado (Business Wire), 23/09/2026
- Rare Earths Americas, comunicado ao mercado (Business Wire, via Nasdaq), 07/07/2026
- CNN Brasil
- CNN Brasil, programa Mapa da Mina
- Boca, 24/09/2026
- Mining.com, 23/09/2026
- Rare Earth Exchanges
- Poder360, 04/09/2026
- Times Brasil (CNBC), 04/09/2026
- Teores dos furos RC-TGA-0010 e RC-TGA-0004. Usar os números do comunicado, que somam o escândio (TREO+Sc), e dizer isso no texto. A diferença vem de o Northern Miner ter excluído o escândio; não é contradição.
- Nacionalidade da empresa. Descrever pela listagem na NYSE American, que é fato verificável.
- Localização de Homer-A. Não publicar a distância nem município: o texto do Northern Miner não pôde ser baixado e nenhuma fonte baixada informa o município.
O que as fontes não cobrem: Nenhuma fonte informa o município de Homer-A nem os números dos processos minerários na ANM; o comunicado, o site da empresa e o prospecto S-1 dizem só 'Goiás'. Não há estimativa de recurso, reserva, estudo econômico nem dado de recuperação metalúrgica para Homer-A. Nenhuma fonte trata de licença ambiental para Homer-A. Os resultados de mais de 5 mil metros já perfurados ainda não foram divulgados.