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Minério de ferro

Vale compra 30% da Ligga e fica com todo o minério da mina Ferro Sul, em Carajás

Aporte de US$ 190 milhões ajuda a financiar a expansão de 2 para 8 milhões de toneladas por ano até 2028, com um ramal que leva o minério direto à ferrovia da Vale

Por Redação MineraçãoLeitura de 4 min
Composições de trem de carga em pátio ferroviário
Imagem ilustrativa. Foto: Angelina Zhang / Pexels

A Vale vai ficar com 30% da Ligga, mineradora que opera a mina Ferro Sul, entre Parauapebas e Curionópolis, no sul do Pará. A entrada é por aporte de capital de cerca de US$ 190 milhões, ou R$ 972,36 milhões, e vem amarrada a um contrato de longo prazo: a Vale passa a ter a compra exclusiva de 100% do sínter feed que a Ligga produzir.

O dinheiro tem destino. A Ferro Sul produz hoje cerca de 2 milhões de toneladas por ano e deve chegar a 8 milhões de toneladas quando a expansão entrar em operação, prevista para junho de 2028. O plano inclui uma planta de beneficiamento nova, obras de infraestrutura e a peça que mais pesa na conta: a ligação ferroviária.

Dez quilômetros que mudam a conta

A mina fica a cerca de 10 quilômetros da Estrada de Ferro Carajás, a ferrovia da Vale que leva o minério da região ao terminal de Ponta da Madeira, em São Luís. Hoje esse trecho é feito de caminhão. A expansão prevê um ramal de 9 km até a ferrovia, o que tira o caminhão da rota.

Segundo pessoas do setor ouvidas pelo Estadão, o investimento total na expansão é de cerca de R$ 500 milhões, pagos com o aporte da Vale e com o caixa da própria Ligga. A obra já tem licença de instalação da Semas, a secretaria de meio ambiente do Pará.

Para a Ligga, o acordo resolve o que sempre limitou o projeto: um produtor pequeno no interior do Pará, sem ferrovia nem porto, não compete no mercado externo. Com o contrato, a empresa ganha comprador garantido e caminho até o navio. A produção atual, aliás, já é vendida à Vale.

Para a Vale, o volume é pequeno. A empresa produziu 336 milhões de toneladas de minério de ferro em 2025, sendo 177,5 milhões em Carajás. Os 8 milhões da Ferro Sul expandida equivalem a pouco mais de 2% do total. O interesse está em garantir minério de um vizinho, rodando na ferrovia que ela já opera, sem arcar sozinha com a abertura da mina.

O que a Vale confirma e o que não confirma

O acordo foi assinado na sexta-feira, 18 de setembro, e anunciado pela Ligga em 19 de setembro. A Vale só confirmou o negócio na terça-feira, 22 de setembro, e informou à CVM que não viu motivo para publicar fato relevante. A conclusão depende de aprovações societárias e regulatórias, entre elas a do Cade.

No mesmo comunicado, a Vale fez uma ressalva: não confirma estimativas atribuídas a terceiros sobre a Ligga, como o tamanho das reservas, expansões além da já anunciada e uma eventual produção de pellet feed. A ressalva tem endereço. Pelo levantamento do Estadão, a Ligga teria cerca de 1,5 bilhão de toneladas em reservas certificadas, número que a Vale não endossa.

Da Rio Minas à Ligga

A empresa tem 15 anos. Nasceu em 2011 como Rio Minas Mineração, criada pelo grupo Santa Elina, com sede em Cuiabá, para reunir os direitos de minério de ferro do grupo em Carajás. Os trabalhos de geologia, sondagem e engenharia em Parauapebas começaram em 2013.

Em 2021, a Rio Minas passou a se chamar Ligga ao formar uma joint venture com a Cosan, que queria ligar as reservas a um terminal portuário próprio em São Luís. O plano esfriou depois que a Cosan comprou 4,9% da própria Vale, em 2022. A Cosan vendeu essa participação em 2025, e neste ano, 2026, os sócios desfizeram a joint venture.

A planta experimental começou a funcionar em 23 de junho de 2022. Produzia 600 mil toneladas por ano no início, passou a 1 milhão e chegou aos 2 milhões atuais. Ela faz beneficiamento a umidade natural e produz sínter feed de alto teor. O grupo Santa Elina é da família Brito, maior acionista da Aura Minerals, e também produz zinco e chumbo em Rondônia.

“Essa operação é um passo natural na relação que construímos com a Vale.”

Gerson Petterle, CEO da Ligga, à Brasil Mineral

O peso de Carajás na CFEM

Parauapebas é o município que mais arrecadou CFEM, a compensação paga pela exploração mineral, em 2023: R$ 1,19 bilhão, segundo a ANM. Canaã dos Carajás veio logo atrás, com R$ 1,04 bilhão. Curionópolis, o outro município da Ferro Sul, arrecadou R$ 55,9 milhões.

CFEM arrecadada por município
Município202120222023
ParauapebasR$ 2,46 biR$ 1,39 biR$ 1,19 bi
CurionópolisR$ 76,2 miR$ 60,1 miR$ 55,9 mi

Fonte: ANM, painel de CFEM por município.

A queda desde 2021 acompanha o preço. Na venda, a CFEM incide sobre a receita bruta, deduzidos os tributos, com alíquota de 3,5% para o ferro. Quando o minério barateia, a arrecadação cai mesmo com o volume igual. E o minério barateou: a média anual foi de US$ 161,70 por tonelada em 2021, a maior da série recente, e de US$ 120,60 em 2023, pelos dados do Banco Mundial.

A ANM publica a CFEM por município, não por mina, e a série vai até 2023. Não dá para dizer quanto da arrecadação de Parauapebas e Curionópolis sai da Ferro Sul hoje. O que dá para dizer é a direção: uma mina quatro vezes maior a partir de 2028 é mais receita de CFEM para os dois municípios.

Fontes desta matéria

Onde as fontes divergem
  • Ano de criação da Ligga. Usar a versão do Estadão, que detalha a trajetória; 2022 é o início da operação, confirmado pelo Correio do Pará.
  • Fatia da Cosan na Vale. Usar 4,9%, número exato.
  • Valor do negócio. Não é contradição: o Estadão publicou antes do comunicado da Vale, que trouxe o valor.

O que as fontes não cobrem: Nenhuma fonte informou o preço do contrato de compra do minério. As reservas de 1,5 bilhão de toneladas e o investimento de R$ 500 milhões são apuração do Estadão com pessoas do setor; a Vale não os confirma. A série de CFEM da ANM termina em 2023 e não separa a arrecadação por mina.

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