Vale religa parte da Mina de Fábrica após 241 dias, mas cavas Área 3 e Área 4 seguem paradas
Decisão da Justiça de Minas se apoia em perícia da AECOM e num termo de compromisso com o MP e o governo; em Ouro Preto, a Câmara quer saber quanto o município perdeu de CFEM com a parada

A Vale vai voltar a operar parte da Mina de Fábrica, na divisa de Ouro Preto com Congonhas. A Justiça estadual liberou a retomada em 23 de setembro, 241 dias depois de a água acumulada numa cava transbordar e descer por córregos da bacia do Paraopeba. A empresa avisou o mercado na mesma noite e disse que suas projeções de produção não mudam.
A liberação é estreita: só as áreas que a consultoria AECOM examinou como perita, nas condições que ela fixou. Continuam fora as cavas Área 3 e Área 4, sobre as quais a perícia não fechou conclusão, e qualquer setor sem aval técnico ou com exigência pendente.
O que a juíza exigiu
Quem assinou foi a juíza Mônica Silveira Vieira, segundo o site O Fator, depois de o Ministério Público de Minas, o governo estadual e a Vale, partes do termo de compromisso, informarem que a perícia era favorável. O acordo previa duas chaves: parecer técnico positivo e, em seguida, exame dos documentos pelo Judiciário.
A AECOM analisou as obras de drenagem feitas desde janeiro, a remoção de material, as estruturas que reduzem a energia da água e retêm sedimento e o monitoramento. Deu por cumpridos três requisitos iniciais, com ressalvas, e pediu ajustes em procedimentos internos.
Dois itens têm prazo de 90 dias a partir do reinício: um procedimento formal para dar obra como encerrada, com registro das etapas, conferência no campo e retirada de estruturas provisórias; e o treinamento de empregados próprios e terceirizados nas rotinas revisadas. Uma auditoria técnica independente acompanha. Para as cavas 3 e 4, a Vale precisará de estudo técnico específico.
Como a Mina de Fábrica parou
O extravasamento ocorreu na madrugada de 25 de janeiro, na Cava Área 18, em Miguel Burnier, distrito de Ouro Preto. A Semad estimou o volume em 262 mil metros cúbicos; a ação do Ministério Público fala em quase 263 mil. A água invadiu áreas internas da unidade Pires, da CSN Mineração, assoreou os córregos Ponciana e Água Santa, que desaguam no Rio Maranhão, afluente do Paraopeba, e alcançou o rio Goiabeiras. Horas depois, a Mina de Viga, em Congonhas, também transbordou.
O que vazou é disputado. A Vale sustentou que saiu só água com terra, sem rejeito, sem feridos, e que suas barragens seguiam estáveis. O Ministério Público Federal diz que a cava só podia receber depósito temporário, mas servia de barragem para resíduos de outras unidades, sem autorização. A ação do MP estadual e do governo, segundo a Assembleia Legislativa, cita documentos da Vale com anomalias geotécnicas na cava. A ANM informou que nenhuma barragem foi comprometida.
A parada veio em etapas. A Semad suspendeu a cava 18 e aplicou multa inicial de R$ 1,7 milhão pelos dois episódios, dobrada em 30 de janeiro para R$ 3,3 milhões por reincidência. Em 6 de fevereiro, uma vara da Fazenda Pública de Belo Horizonte mandou parar a mina inteira. Na Justiça Federal, em ação do MPF, também houve ordem de suspensão, com bloqueio dos direitos minerários na ANM e multa diária de R$ 500 mil; o pedido de bloqueio de R$ 1 bilhão ficou para depois.
Pouco peso para a Vale, muito para o município
No relatório de produção, Fábrica aparece somada a Mutuca e outras minas no complexo Paraopeba. Dali saíram 1,81 milhão de toneladas no segundo trimestre de 2026, 54% abaixo dos 3,95 milhões de 2025. No semestre, foram 3,45 milhões contra 6,79 milhões: 3,3 milhões de toneladas a menos, que a Vale atribui sobretudo à parada de Fábrica e Viga.
Para a Vale, o efeito é pequeno. O complexo pesava 4,7% da produção de minério de ferro no segundo trimestre de 2025 e 2,1% um ano depois, quando a companhia somou 84,3 milhões de toneladas. A projeção de 335 a 345 milhões de toneladas para 2026 foi mantida.
“Essas duas unidades são relativamente pequenas em relação à nossa produção total.”
Marcelo Bacci, vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores da Vale, em abril, ao Mais Minas
Para Ouro Preto, a régua é outra. O vereador Renato Zoroastro apresentou em 24 de setembro representação, aprovada pela Câmara, pedindo à Vale a CFEM gerada pela mina mês a mês desde janeiro de 2024, estudos de impacto da parada e se haverá compensação. Ele quer saber se houve “perda econômica mensurável”, segundo o Jornal Geraes. A Procuradoria-Geral do Município abriu processo administrativo sobre os danos.
A CFEM do ferro é de 3,5% sobre a receita de venda, e 60% ficam com o município onde a lavra acontece. Minério que não sai da mina não gera compensação. Pelos dados da ANM, a arrecadação em Ouro Preto mais que triplicou entre 2020, com R$ 30,2 milhões, e 2023, com R$ 107,8 milhões.
| Município | 2021 | 2022 | 2023 |
|---|---|---|---|
| Ouro Preto | R$ 68,3 mi | R$ 85,5 mi | R$ 107,8 mi |
| Congonhas | R$ 569,5 mi | R$ 272,6 mi | R$ 309,1 mi |
Fonte: ANM, painel de CFEM por município.
O que segue sem resposta
A Vale não informou quanto da capacidade de Fábrica volta agora nem quando espera operar a mina inteira. O termo de compromisso e o laudo da AECOM não foram divulgados, e não se sabe se o acordo prevê compensação em dinheiro. Nenhuma fonte esclareceu se a ordem da Justiça Federal caiu. A empresa não respondeu em público à Câmara, e o comunicado de setembro não trata de Viga. Como a série da ANM termina em 2023 e não separa a CFEM por mina, não dá para calcular quanto Ouro Preto deixou de receber.
Fontes desta matéria
- Vale, comunicado ao mercado, reproduzido pela Brasil Mineral, 23/09/2026
- Reuters, publicada pelo InfoMoney, 24/09/2026
- Vale, nota sobre o extravasamento na mina de Fábrica, 25/01/2026
- O Fator, 23/09/2026
- Agência Brasil, 24/09/2026
- Diário do Comércio, republicado pelo Correio de Minas, 24/09/2026
- CPG Click Petróleo e Gás, 24/09/2026
- Jornal Geraes, 24/09/2026
- Jornal Geraes
- Revista Mineração & Sustentabilidade, 25/09/2026
- Revista Mineração & Sustentabilidade, com dados da Semad, 02/02/2026
- Tribuna de Minas, com Estadão Conteúdo, 29/01/2026
- Ministério Público Federal em Minas Gerais
- Assembleia Legislativa de Minas Gerais
- Por Dentro de Minas, 23/09/2026
- Mais Minas
- Vale, Relatório de produção e vendas do 2T26, 21/07/2026
- ANM, painel de CFEM por município, 25/09/2026
- Lei 13.540/2017, 18/12/2017
- Volume extravasado. Usar os 262 mil m³ da Semad, órgão que fiscalizou, e registrar que a ação do MP fala em quase 263 mil. A diferença é de arredondamento.
- Natureza do material. Apresentar as versões atribuídas: a da Vale e a dos Ministérios Públicos. Não há laudo público que resolva.
- Multa do governo de Minas. Usar R$ 3,3 milhões como valor final e citar os R$ 1,7 milhão iniciais; várias matérias de setembro repetem só o valor inicial.
- Início da paralisação. Não é contradição: a parada foi em etapas (cava 18 pela Semad em janeiro, a mina inteira pela Justiça em 6 de fevereiro). Os 241 dias são contados do extravasamento, não da ordem judicial (229 dias).
- Data do episódio de Viga. Escrever 'horas depois', sem data, porque as fontes discordam do dia.
- Composição do complexo. Usar a descrição do relatório da Vale.
- Localização. A mina fica na divisa; a cava que extravasou está em Ouro Preto.
O que as fontes não cobrem: Nenhuma fonte informou quanto da capacidade da Mina de Fábrica volta a operar, nem quando a Vale espera a operação plena. O texto do Termo de Compromisso e o laudo da AECOM não foram divulgados; não se sabe se o acordo prevê valores de compensação. Nenhuma fonte informou se a suspensão determinada pela Justiça Federal na ação do MPF foi revogada ou como ela se relaciona com a decisão estadual. A Vale não respondeu publicamente à representação do vereador sobre a CFEM. A série de CFEM da ANM termina em 2023 e não separa a arrecadação por mina; o relatório da Vale não separa Fábrica das outras minas do complexo Paraopeba. A situação da Mina de Viga, em Congonhas, não foi tratada no comunicado de setembro.