Frete marítimo dobra em 2026 e pressiona mineradoras, mas Vale se diz protegida por contratos
Custo do transporte de minério para a China subiu de US$ 20 para US$ 43 por tonelada; BTG Pactual mantém compra para Vale, que revisa compras de terceiros para preservar margens

Na rota C3, que liga o porto de Tubarão, no Espírito Santo, ao terminal chinês de Qingdao, o valor do frete marítimo praticamente dobrou desde janeiro, segundo levantamento da BlockTrends. A alta superou 100% em menos de nove meses do ano.
No início de setembro, o indicador já estava em US$ 38 por tonelada, um avanço de 57% em 12 meses. O movimento eleva o peso do transporte marítimo no custo final do minério de ferro: com o produto cotado abaixo de US$ 100 por tonelada, o frete atual passa a representar quase 45% do preço, segundo a BlockTrends.
Vale diz que frete marítimo tem impacto amenizado por contratos de longo prazo
A Vale concentra hoje entre 70% e 75% de seus volumes embarcados em contratos travados a cerca de US$ 19 por tonelada, valor que sobe para US$ 23 por tonelada quando incluído o custo de combustível. A diferença entre esse patamar contratado e o preço praticado no mercado à vista chega a US$ 20 por tonelada.
Essa proteção é resultado de uma mudança de estratégia da mineradora, que deixou de operar frota própria e os navios Valemax e passou a um modelo descrito pela BlockTrends como "asset light", baseado em contratos de longo prazo com terceiros.
Segundo estimativa da consultoria, a exposição residual da Vale ao frete no mercado à vista deve somar cerca de US$ 1 bilhão em 2027, fatia próxima de 6% do Ebitda projetado pela empresa para o período, de US$ 17,2 bilhões.
Depois de um encontro com o CEO da Vale, Gustavo Pimenta, o BTG Pactual divulgou relatório dias depois mantendo a recomendação de compra para as ações VALE3, com preço-alvo de R$ 90, de acordo com a Acia de Araçatuba.
O que a Vale confirma e o que não detalha sobre o frete marítimo
De acordo com a Acia de Araçatuba, a Vale avalia o mercado de minério de ferro como desafiador, mas afirma que sua posição logística e os contratos de longo prazo amenizam o impacto da disparada do frete sobre o negócio.
A empresa, no entanto, não detalhou publicamente quais são os mecanismos específicos usados para se proteger da alta do frete, segundo a mesma fonte.
Para preservar margens diante do encarecimento do transporte, a Vale também revisa suas compras de minério de terceiros, hoje da ordem de 30 milhões de toneladas por ano.
A companhia enfrenta outras frentes operacionais neste período: a Vale religou parte da Mina de Fábrica, em Ouro Preto, após meses de paralisação, decisão que não altera diretamente a discussão sobre frete, mas soma-se ao conjunto de fatores que moldam a percepção do mercado sobre a mineradora neste ano. A alta do frete também ocorre no mesmo período em que a ANM recomendou medidas de segurança para barragens diante do risco de El Niño, tema que também tem pressionado o setor.
O que ainda não se sabe
A Vale ainda não se manifestou, por meio de sua assessoria de imprensa, sobre os números de frete levantados pela BlockTrends. Também não há informação sobre o impacto concreto da alta do frete em mineradoras brasileiras menores, citadas de forma nominal em outros levantamentos. Por fim, não se sabe quando vencem os principais contratos de frete de longo prazo mantidos pela Vale, informação que ajudaria a dimensionar por quanto tempo a proteção atual deve durar.
Fontes desta matéria
- Acia Araçatuba, 23/09/2026
- BlockTrends, 23/09/2026
O que as fontes não cobrem: Posicionamento oficial da Vale (assessoria de imprensa) sobre os números de frete Impacto concreto em mineradoras menores brasileiras citadas de forma nominal Quando vencem os principais contratos de frete de longo prazo da Vale